Alguéns.

Tá bom,eu admito.Eu sinto falta de alguém.De olhar pra alguém.

Não daqueles alguéns que a gente tem pra se afogar em abraços,nem pra expor libertinagem in door.Não daqueles que a gente sonha acordada,e se pega no meio da noite mexendo os labios,beijando a escuridão do quarto.

Não,eu quero alguém.Alguém só pra compartilhar,sem sexo nem gênero definido.Alguém pra jogar palavras fora,e discutir sobre coisas que ambos desconhecem.Montar e remendar teorias infundamentadas.Alguém só pra sentar perto da janela,e rir dos que passam na rua.

Daqueles alguéns,que a gente tem o prazer de receber,e o descompromisso de aparecer.Daqueles que a gente encontra na esquina e resolve tornar o dia diferente.Daqueles,que sem pretexto,quer dividir um café com sorvete,e uma tarde inteira disperdiçada em olhares alheios.

Também não peço aceitação.Eu quero conflito,discussão.Quero opnião contraria,de um partido capitalista de direita.Quero,alguém que saiba remediar,apartar,se abaixar e se impor.Quero aquelas brigas homéricas no meio da rua,que acabam por ser resolvidas no metrô,quando um dos dois senta no lugar preferencial.

Não me importaria se fosse baixo,alto,negro,branco ou azul.Nem iria  questionar da onde viera,se foi do Mato Grosso,da Nova Caledonia ou de uma das sete luas.

Quero alguém pra acompanhar,e descobrir.Pra cruzar ideias,e rotas.Pra transformar a rotina.Alguém pra aventurar,pra fugir,pra proteger.Quero alguém pra sentir ciume,ira,amor,saudades.Alguém que me deixe ser viva.

Não quero,definitivamente,que alguém seja meu,nem que eu seja desse alguém.Eu quero só,compartilhar.Compartilhar liberdade,talvez.

                          “Happiness only real when shared”

“Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.”

Clarice Lispector

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