Com sede própria.

O motorista que se preocupava alternadamente,entre um semáforo fechado e as paradas de ônibus,continuava a concluir seu caça-palavras-cruzadas,e ignorava os espaços entre cada letra nova que podia completar.Em nenhum,nem no outro,acabou por encarar uma lacuna de quatro letras que inconcebivelmente o impediam de terminar a missão diária.Enquanto um passageiro descia e mais cinco subiam,matematizava quantas paradas a mais seriam necessarias pra que aquele aglomerado de sinapses resolvesse funcionar e surgisse com a palavra em questão.

O motorista,sem nenhuma perspicácia,percorreu três vezes o seu trajeto,demorou o dobro do tempo em cada parada,deu carona pra tranquibeiros,deixou entrar vendedores de chiclete e caneta,e até mesmo fez questão de parar bem próximo dos idosos que acenavam euforicamente,do jeito eufórico que pessoas com mais de sesseita e cinco anos podem acenar.E quando qualquer um desses agradecia com um sorriso mais descarado do mundo,o motorista nem se incomodava.Estava tentando,encontrar a palavra certa.

O cobrador,notando tardiamente o estado do motorista,saiu da sua cadeira da maneira de sempre com que os cobradores saem de suas cadeiras,e se aproximou.O motorista,ainda muito concentrado,não notou a chegada do seu igualmente irrelevante colega de trabalho ,até por que o volume da rádio sertaneja estava um tanto quanto mais alto do que de costume,aumentado de propósito já que a música e o som da viola sempre ajudavam o motorista a pensar.

O cobrador olhou a lacuna,contou com os dedos a palavra que tinha em mente,e a cada letra certa sentia seu nariz subir mais alguns graus de desdém pelo motorista.Virou-se de costas e marchou passo a passo rumo a sua cadeira uns centimetros mais alta que as demais,o que o fazia sentir inteligivelmente mais dominante.

O cobrador,que agora se acomodava em sua almofada cor de abóbora,que servia de estofado para a cadeira,desprezou com mais intensidade todos os motoristas suburbanos e suas revistinhas Coquetel,canalizou sua atenção para a falta de moedinhas de cinquenta centavos e desviou o olhar de todos os passageiros que agora fingiam ignorar o fato de que o cobrador e o motorista eram ironicamente, gemeamente idênticos.

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