Eu acho injusto o amor entre uma mulher e um homem.

A ideia que eu, como mulher ou como eu mesma, chamo de amor é diferente da que ele nomeia. Mesmo na superfície do afeto, o que eu dou e espero como carinho, como manifestação física da intimidade, não tem necessariamente um paralelo nele.

Vou falar como mulher, como midori, já que não vou fazer a bobeira de reduzir os outros à minha interpretação deles. Mas me darei o direito de redigir tais impressões. Talvez seja por isso que deixo aqui manifesto meu conjunto de idealizações amorosas, pra que saibam como as coisas movem em mim. Sugiro que façam o mesmo.

Preciso dessa redação pra acalmar os nervos, pra criar distância e perspectiva nesse emaranhado, por vezes visceral outras puramente uma punheta mental.

Acho que essa disparidade percorre todos os níveis de um relacionamento, logo depois da disputa início pela conquista do corpo do outro, logo depois do suspiro pela confirmação de uma ilusória reciprocidade. É nesse ponto que um relacionamento começa, quando você finca a bandeira no território do outro, vai dar meia-volta e vê que seu território também foi invadido. E você sorri de conforto.

A partir desse momento, quando meu mundo orbita o seu e vice-versa, ambos já tem trajetórias pretendidas que não podem ser percorridas conjuntamente. As minhas expectativas (sinto muito, elas são reais e de produção involuntária) mergulham em você, pra que você seja aquilo que eu preparei, que maturei, redesenhei, e agora se encaixa tão perfeitamente na sua imagem.

As minhas questões são poucas.

Como perspectiva, o que um significa pro outro, a divergência é sutil mas fatal.

No amor eu vejo um convite, uma jornada, uma companhia e a possibilidade de viver intensamente tudo o que vier pelo caminho. Não sou tonta de acreditar numa promessa, mas amor significada confiar no outro. Confiar que mesmo todos sejamos humanos e que nenhum de nós está livre da possibilidade de machucar os outros de modo egoísta, confiar que os choques de se tentar rearranjar as órbitas vai ser objeto de cuidado, estudo e esclarecimento.

Eu não quero ser um conforto, não quero ser apoio ou peso. Não quero ser a confirmação de nada, nem a promessa de completude que a paixão oferece.  Não quero ser o sossego da sua mente em achar que agora o amor é garantia de si mesmo. Não quero ser uma tarefa na agenda, compromisso e alarme. Não quero ser responsabilidade.

Quero ser a escolha, a decisão diária de investimento a longo prazo. Quero ter essa obra conjunta a construir, derrubar, remodelar. Quero um relacionamento que não seja estado, mas processo. E quero o comprometimento mútuo de nutrir e cuidar, até quando parecer certo e prazeroso (prazer é importante, porra!), desse universo absurdo que só existe na presença de ambos.

Eu não quero que meu corpo seja troféu, que seja brinquedo, não quero que seja propriedade, ainda mais daquelas visitadas ocasionalmente como distração e refúgio de férias. Não quero que a intimidade signifique a redução do meu território à parte onde já foi saciada a curiosidade, muito menos que signifique a conquista garantida dessas terras.

Eu acho que eu quero um flerte cotidiano (eu não tenho certeza da extensão da ideia), reconquista diária. Eu quero que meu corpo, assim como aquilo que o anima, seja explorado, admirado e experimentado com a mesma curiosidade e respeito que eu exploro o seu. Com o prazer e cuidado de cultivar na pele a linguagem das coisas que só o meu corpo sabe falar.

Eu não quero ser reduzida  a parideira, alguém que foi escolhida pelos mais diversos atributos e valores compatíveis para trazer e cuidar dos seus tesouros. Não quero que o próximo passo, ou o ápice dessa jornada, ou o evento do convite, seja o momento em que eu efetivo o que o nosso amor produziu, como prova da minha ou mesmo da nossa, competência e compatibilidade.

Eu quero ser parceira, quero estar ombro a ombro e mãos dadas, quero ser a paz e confiança de poder assumir nos braços uma criação a dois e estar ansioso em presenciar o espanto e a beleza de ver alguém crescer e se formar. Quero dividir o fardo e a responsabilidade, não só com esse terceiro alguém como filh@, mas também com quem precisar de suporte pra ser pai.

Eu não aceito ser menos que isso.

Já deixei de acreditar que existe um certo ou errado, um melhor ou pior. Cada um de nós coletou e organizou o amor conforme lhe foi sugerido e conforme a vida mostrou.

Mas eu não aceito ser menos que isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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