Arcadis

Começo a considerar que a intenção desse emprego/estágio, no esquema geral da aleatoriedade do percurso da minha vida, foi a de me devolver o tempo e a disposição de voltar a trabalhar por dentro de mim. Funções reais, eu não tenho. Nem demandas urgentes, prazos apertados, grande responsabilidade. Muito menos a cobrança real da produtividade corporativa, das tabelas de excel e dos emails cordiais.

Mesmo assim, eu passo 20 horas semanais sentada em  uma poltrona ergonômica, apoiando meus pés numa dessas plataformas também ergonômicas, enquanto digito qualquer coisa que cruzar a minha atenção na página do Google, lembrando sempre de apoiar os punhos nas almofadinhas ergonômicas do teclado e mouse. Já montei pra mim mesma uma rotina minimamente confortável que me permite marcar a passagem do tempo no ambiente uniformemente iluminado para a realização do trabalho de escritório.

Chego às 8h da manhã, e enquanto ligo meu computador e atualizo a caixa de entrada do e-mail, encho minha garrafa de água e faço meu chá de Jasmim (que eu roubei da Lena) com a água quente que sai da máquina de café expresso.Às 10h, religiosamente, como minha fruta por força do hábito, geralmente uma banana, e volto a me entregar à mesma atividade que fiz nas duas horas precedentes, ler e procurar, pesquisar, voltar, salvar, coletar, organizar, perguntar, anotar, pensar, pensar, pensar; e em sua grande parte, em absoluto silêncio conferido pelos fones de ouvido. Às 12h, também com certa religiosidade, tempero meu almoço apresentado agradavelmente no tupperware que eu carrego todos os dias, e que foi preparado com certa dose de carinho por mim mesma na noite anterior. Como sem esquentar, por não ter a disponibilidade de um microondas e por não me incomodar com isso. Na verdade, sinto até mais prazer em comer a comida na temperatura ambiente. Como olhando pro horizonte de São Paulo, tendo o Martinelli a minha esquerda, a Catedral da Sé a direita, e estando atrás dela o Fórum João Mendes. Se eu esticar um pouquinho o pescoço posso ver o Edifício Sampaio Moreira e lembrar mais uma vez o que foi que me trouxe até o 22º andar do Mercantil Finasa. Escovo meus dentes, me olho no espelho, e sento mais uma vez diante do portal do delírio da informação.

Às vezes sinto muita dificuldade em acompanhar o ritmo das coisas, acompanhar o passo do mundo. Hoje, por exemplo, me peguei pensando na cenário perfeito, a situação na qual eu me sentiria mais bem realizada no momento. Hoje, eu queria estar sozinha, completamente livre e sem horários. Eu queria ter acordado (podia ser na minha cama ou em alguma cama em algum outro lugar) e me dado o tempo de sentar na cama enquanto eu espio a janela com os olhos cheios dos sonhos que eu acabei de ter. Admito que gostaria que estivesse mais frio, pra eu sentir quanto calor eu criei durante a noite e o quanto dele vai se dispersando pelas partes descobertas do meu corpo. Levantaria devagar e vestiria meu roupão, arrastando meus chinelos até a cozinha onde eu começaria a criar calor por fora pra me aquecer por dentro. Eu me sentaria na frente da janela, e enquanto bebia meu café quente bem devagar, me deixaria sentir o prazer pela consciência sonolenta que eu carregaria comigo, da cama até a mesa.

Eu queria passar o dia inteiro lendo, vestindo meu pijama e bebendo todos os chás que eu pudesse inventar de fazer. Eu queria passar o dia me sentindo confortável, sem pressa nem cobrança. Hoje queria não ter previsão, expectativa, nem necessidade. Queria não ter que me olhar no espelho, pelo simples fato de que a beleza que eu quero encontrar em mim hoje é do tipo que existe pra ser sentida e não vista.

Por mais que eu não possa fazer nada disso no cenário ideal, cá estou, sentada na frente de um computador de 2013 no 22º andar no centro de São Paulo, respirando ar condicionado pelas últimas 5 horas, bebendo meu chá e lendo um ebook que encontrei ao acaso na internet.

Não, não é tão bonito, bucólico e agradável quanto na minha cabeça, mas é como eu interpreto o meu entorno, hoje.

Queria soar menos clichê, enfim. Eu voltei a me sentir calma, voltei a estar em mim. Ou pelo menos, ao lugar que eu me sinto bem em estar.

Toda vez que eu começo a escrever, tentar expressar alguma coisa maravilhosa que eu descobri dentro de mim, elas começam a perder a beleza no minuto em que saem de mim.

Eu tenho pensado muito sobre isso, no que significa esse confiar em nós mesmos. Tenho sentido algumas contradições em mim que são assustadoramente cruciais, e eu nem tinha me dado conta antes.

Eu consigo entender hoje que a grande fonte do meu desprazer é me ver diante da realidade que eu interpreto como sendo aquela que me cerceia e me limita, quando eu me sinto encurralada pela falta de mobilidade. Quando eu me sinto sem opção, sem autonomia, é que eu começo a sentir toda a minha angústia crescendo e se tornando o combustível pra minha necessidade de auto destruição. Só que das realidades que estou falando, todas foram eu quem construí, me cercando e me limitando justamente pela necessidade constante de exercer a minha autonomia, marcando a minha postura através das minhas escolhas. É um ato de governança e rebeldia, eu comigo mesma. E puxa, como isso é cansativo.
Tenho tentado me colocar no caminho de construir a confiança em mim mesma, tentando primeiro superar a arrogância das definições que eu me dou, e apenas dando passos certeiros no meio da neblina.

As vezes eu só consigo ouvir a minha própria cabeça. Só que mesmo com o combustível que alimenta a ânsia de escrever, ou expressar, eu estou sempre assustada em ter de enfrentar a fatalidade das minhas palavras e a estupidez dos meus pensamentos.

– o bom, é que o tempo passa pra todo mundo.

Eu não consigo acreditar em nada mais do que eu escrevo. Não porque fuja de ser minimamente coerente, e essencialmente sincero. Mas porque agora tem um novo elemento que participa na formação do raciocínio, e tudo o que ele adiciona me parece suspeito e inflamado demais pra se escrever. E então surge a necessidade de um novo elemento, um esforço extra pra conseguir ser capaz de distinguir o que é realmente que eu quero escrever. E olha que estou começando a suspeitar que talvez não seja conseguir, ser ou distinguir que eu esteja fazendo com esse esforço extra, é algo muito mais sutil e delicado que isso.

– o que será que está na curva?